Quem sou eu

domingo, 18 de dezembro de 2016

Saturação

Estou farto de ler no poeta

(e de ouvir da prosaica Patrícia)

A sua crítica ao burguês

que vive na absoluta surdez

a louvar o que não ouve.


De minha parte, estou farto

(um pouco mais e será meu parto)

do reacionário bem comportado

que perora na mídia contra os vândalos

E só ataca com ardor certos escândalos.


Estou farto dos homens responsáveis

que, defendendo a empregabilidade,

a sensatez e a tal da governabilidade,

dormem tranquilos em torres de vidro e aço

erguidas sob escombros de pele e osso

com a pobreza esfolando até o pescoço.


Estou farto do grande empreiteiro,

do demagogo e do marqueteiro,

dos governos de coalizão,

dos governantes sem ação,

dos formadores de opinião,

dos senhores engravatados

comendo churrasco e sushi

e dirigindo seus camionetões.


Estou farto da política sem utopia

dos ideais cuidadosamente mesquinhos

e do projeto sem gozo nem emancipação.


Estou farto da novela das nove,

do futebol das dez e das horas vazias

Por não ter ido à marcha das vadias.

Estou farto!


Farto dos derivativos e dos mercados sem futuro,

Farto da volta da inflação e dos saltos no escuro,

Farto dos times jogando com três volantes

e dos livros silenciosos nas estantes,

dos discursos de bom senso dos especialistas

das teses dos sociólogos e dos economistas

dos ataques da polícia e do batalhão de choque

do gás de pimenta, balas de borracha e toque,

Toque de encurralar na velhice do imaginário.


Estou farto dos que não saem do armário

e ainda cobram dos outros que durmam de touca.


Estou farto da retórica bem comportada

dos que aconselham a fazer o que não fazem

limitando-se solenemente a soltar gazes

enquanto trivialmente estouram champanhe.


Estou farto dos preços das passagens de ônibus,

das críticas ao bolsa-família e às cotas,

do escritor que fala do umbigo

e ganha prêmios como trigo

(um trigal simulando o ouro adornando uma bolsa de couro)

por ter sido obscuro como pão queimado.


Estou farto dos saudosos da ditadura

e dos corruptos que nunca levam uma dura.


Só o que me lava a alma são esses manifestantes

reclamando o possível em nome do impossível

e pondo de joelho os postes de cada governo.


Estou farto de mim,

De mim e do Alckmin,

De mim e do Haddad,

De mim e da falsidade.


Estou farto do reacionário bem comportado

que não deixa mudar o mundo por educação.

Não se mexe no que dá tão certo por estar errado.


Estou farto do antipetista fanático

que se acha não ideológico e fantástico

enquanto destila bílis e mesquinharia.


Estou farto dessa tola engenharia

que prega o fim de direita e esquerda

como um triunfo da sua ideologia.


Estou farto dos que tentam me cooptar

Enganar, embrulhar, adaptar, empalar.


Estar farto de ser isto e aquilo

como um almoço por quilo:

anteontem eu era de direita,

Ontem eu era petista,

Hoje, sou PSOL.

Amanhã estarei no formol?


Estou farto de reacionários fakes

e dos tantos fakes reacionários

Que me elogiam por conveniência

tentando ler o que eu não digo

quando só estou comendo um figo.

Estou farto de estar farto.

Estou farto dessa fartura.

Espero estar longe do infarto.

E perto de uma goiabada com queijo.

Juremir Machado da Silva

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